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Quarta-Feira, 10 de Março de 2010
Sábado, 19 de Dezembro de 2009

Por: Kátia Alexsandra dos Santos*


Tratar da mulher implica tratar de mim mesma e isso imprime um tom essencialmente confessional ao que me proponho a escrever. O faço ao som de mulheres (Adriana Calcanhoto e Rita Lee) que também me acompanham, inspiram e compartilham comigo da mesma dor e gozo: a de ser mulher. Vendo que não há como fugir, cabe aceitar essa condição, afinal, como já afirmou Virgínia Woolf, “os escritos de uma mulher são sempre femininos; não podem deixar de sê-lo; quanto melhor, mais feminino; a única dificuldade é definir o que entendemos por feminino”.

Quando pensamos (e aí reúno homens e mulheres como um todo) em “mulher” logo nos vêm à cabeça as várias dicotomias que compõem esse signo: frágil/ forte, mãe/amante, submissa/decidida, boa/má, etc. Isso ocorre porque a mulher realmente se constituiu enquanto significante numa relação dicotômica. Partindo de uma bissexualidade, a mulher carrega em si ainda muitos atributos de natureza masculina, que se aliam e incorporam aos de natureza feminina, enquanto para o homem isso é vedado.

O mito de Lilith, a mulher bruxa, serpente, nos remete ao conceito da não-mulher, ou da mulher fora dos padrões cristãos: a mulher traidora, a mãe má, devoradora, sensual, perigosa. É justamente essa feminilidade exacerbada que não é aceita pela sociedade, já que construída a partir da ótica masculina e cristã. Desde sempre, sobretudo pela influência do Cristianismo, temos a figura da mulher constituída a partir de um modelo de submissão, virgindade e maternidade, materializada na figura da Virgem Maria. Lilith é o inverso, a subversão a esse modelo.

Vejamos o que nos diz o mito de Lilith, a “lua negra”:

“Deus criou Lilith, a primeira mulher, do mesmo modo que havia criado Adão, só que usou sujeira e sedimento impuro em vez de pó ou terra. Adão e Lilith nunca encontraram a paz juntos. Ela discordava dele em muitos assuntos e recusava-se a deitar debaixo dele na relação sexual, fundamentando sua reivindicação de igualdade no fato de que ambos haviam sido criados da terra. Quando percebeu que Adão a subjugaria, proferiu o nome inefável de Deus e pôs-se a voar pelo mundo. Finalmente, passou a viver numa caverna no deserto, às margens do Mar Vermelho. Ali, envolveu-se numa desenfreada promiscuidade, unindo-se aos demônios lascivos e gerando, diariamente, centenas de Lilith ou bebês demoníacos.” (BLAK KOLTUV, O Livro de Lilith In: Schmidt: 1997, p. 94.)


Lilith seria, pois, a mulher originária, anterior à própria Eva e, por isso, ainda mais subversiva. Eva nasce da costela de Adão, portanto já de material diferente e é destinada ao homem, daí sua posição submissa original; é criada tão somente para fazer companhia a Adão e servir-lhe. Contudo, ainda se configura como a “perdição” do homem, tendo em vista que é a “culpada” pelo pecado original.

A nossa personagem parece ter sido muito pior e talvez por isso tenha sido banida da “história” dando lugar a Eva, mulher mais amena. Em algumas civilizações o mito de Lilith sobreviveu e ainda sobrevive como símbolo da mulher em seu aspecto mais perigoso, ameaçador, malévolo. Lilith encarna um dos lados da nossa feminilidade. Ela reivindica sua posição de igualdade perante o homem e, não sendo atendida, volta-se contra ele, aliando-se às forças do mal. A continuação do mito nos conta que Adão fica totalmente perplexo com a perda de sua companheira e nutre por ela um sentimento de amor e ódio. O desprezo de Lilith ao primeiro e único homem é que confere o seu poder e sua simbologia de contrariedade ao patriarcalismo.

Lilith é bela, sedutora, encarna em si a pura sexualidade, da qual o homem não consegue fugir. Assim, a mulher-bruxa enreda o homem em suas armadilhas sexuais, mentindo uma submissão, tornando-se objeto para depois aprisioná-lo. É isso que fez Lilith, deixando Adão em total desespero e negando-se a voltar para ele. Diz a lenda também que nossa personagem gera vidas e as mata, come seus filhos (machos) como se quisesse literalmente tomar para si o falo que lhe foi negado. As experiências sexuais de Lilith com demônios são encaradas como “promiscuidade”, o que nos dá a noção exata de até onde pode ir uma mulher. O constructo social de mulher íntegra, moral, aplica-se sobretudo ao aspecto sexual, lugar do poder feminino e, por isso mesmo, do seu maior interdito.

Lilith retorna encarnada em toda mulher que, sendo mulher, não consegue ou não deseja entrar na lógica do desejo masculino, não se contenta e não se permite ser “apenas” dona-de-casa, mãe, esposa fiel e submissa. Lilith é também Medéia, a mãe que mata os próprios filhos da tragédia grega, é Medusa, é Morgana, a bruxa das lendas de cavalaria, enfim, todas as personagens que, escritas por homens, reavivam o mito da mulher do ato fundante.

* Kátia Alexsandra dos Santos é professora de Linguística e Análise do Discurso da UNICENTRO-PR. Autora da Dissertação de mestrado A HETEROGENEIDADE DO DISCURSO FEMININO: MULHER-EFEITO E SEUS DESDOBRAMENTOS 

 

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Quinta-Feira, 19 de Novembro de 2009

Pré-estreia do filme sobre a vida de um metalúrgico sacoleja a
imprensa a produzir clichês

Por Elaine Moraes*

Em nome da Rosa, em nome de uma rosa, O nome da rosa? A clássica expressão que nomeia o romance de Humberto Eco, ou a produção fílmica The Name of the Rose , que ganhou as telas e já teve milhares de telespectadores, sob a direção de Jean Jacques Annaud agora pode anunciar universos distintos. Na literatura ou no cinema, temos um feudalismo em crise dando espaço ao florescer de uma ideia capital em plena Idade Média. E daí? Peço licença aos leitores para “catacrizar”: Em nome do espetáculo, Em nome de um espetáculo, O nome do espetáculo, O nome do espetáculo? Sim, na mídia politizada, temos a produção política espetacular... uma produção jornalística, com direito a cenário, “tietagens” e celebridades. Por que não? Por que sim? Em nome da verdade de uma notícía (que verdade? Já perguntava Michel Foucault em “A verdade e as formas jurídicas”... lá longe numa França sem fim).

É isso, ligo a TV e posso ouvir um anúncio-notícia de que alguns dos filhos de Francisco ganharam as telas e tudo bem...Quatro anos depois, não se pode dizer o mesmo da saga retratada de um único homem público: não! Ele não faz parte do mundo da música, ele não pode dar autógrafos sem parecer politicador... Foi assim, com esse ar de desconfiança, que uma das mídias mais assistidas compareceu na noite de seus telespecatores, ontem, para noticiar espetaculosamente a estreia de uma produção. A estreia de um jogo de campanha? ...Quem sabe?
No vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR) de 2008, uma proposta de redação convocava os candidatos a futuros acadêmicos a pensar por que os brasileiros quase não lêem. No gráfico em texto de apoio, lá estava a televisão no topo de uma pesquisa de diagnóstico pouco inovador: mais de 40% da população passa suas horas vagas (quantas?) diante da televisão. O que fazer? O que assistir? Verdade?
A verdade é que já não se tem o direito de receber informações e refletir. Para que isso? Podemos receber as críticas mastigadas... isso até já é profissão, quantos bravos cavalheiros não são pagos para pensar por mim? Sim, eles mastigam a minha notícia, e eu tenho que engolir, com crítica e tudo...Se for boazinha, poderei usá-los num grande e persuasivo discurso citado... “sabe, da última? Vi na televisão que o presidente usa até do cinema pra se propagandar”. Quem sabe?

Em nome da audiência, em nome de uma audiência, o nome da audiência? Lula. Palavra pequena que, há anos, tem espaço garantido nas garras de uma imprensa baseada em clichês. Nos de ontem à noite, era possível compreender essas arestas, o grande bordado de uma mídia parcial e formadora de opiniões. E não é assim? Existe informação imparcial? Pesquisadores, professores, cientistas, marqueteiros, todos se apressam em defender ... cada qual uma bandeira. Que seja! Na subjetividade corriqueira, quero ter desafios e ser convocada a vasculhar o universo mágico da linguagem, quero pensar pra entender as sutilezas, eu quero a arte do jornalismo, aquela dos profissionais: chega de banalidades. Como engolir um mortal e tóxico “político falou igual à cineasta e artista falou igual a político”? Como encontrar o léxico “tietagem” aqui, e não acolá, e não dizer nada? Dizer? O quê? Para quem?
Na noite de ontem, como em tantas outras, a mídia prestou um serviço público: questionou a estreia de um filme que tratava do Presidente da República. Alertava-me, no ano antes das eleições, de tamanha “tietagem política”.
Nossa! Quão lisonjeiro é pensar que esse ato jornalístico apartidário e esclarecedor visa, apenas, a minha compreensão, minha formação... Minha desinformação!
Em nome da política? Informação! Em nome de uma política? Desinformação. O nome da política? Mídia espetáculo.
Na esteira do Letras abertas, compareço sim, venho gritar meu direito de ter direito, venho pedir uma informação de qualidade, venho lutar por uma opinião política pautada na política, pautada na minha (in)formação, venho implorar menos clichê e mais cidadania, serviço público, entretenimento. Assim seja!
 

 * Elaine Moraes é mestre em Letras pela Universidade Estadual de Maringá e professora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (FECILCAM). Autora da Dissertaçao de mestrado intitulada O ESPETÁCULO POLÍTICO E A DOCILIZAÇÃO DO CORPO NA CAMPANHA ELEITORAL DE LULA EM 2002

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Quarta-Feira, 09 de Setembro de 2009

Por Renata Adriana de Souza*

O dia 1º de setembro de 2009 marcou os 70 anos do início da II Guerra Mundial. Ao longo dos anos, após o término do conflito, surgiram os mais diversos discursos que divulgaram os horrores do período, dentre os temas mais chocantes têm se destacado o nazismo e o holocausto. Os discursos referentes a essas questões enfatizam os horrores do movimento que causou o extermínio de milhões de seres humanos e mostram a força e complexidade que tais assuntos possuem. O filme O Leitor é um exemplo de discurso que movimenta e produz efeitos de sentidos referentes aos episódios dramáticos que fizeram parte do cotidiano da Alemanha nazista.

 

* Renata Adriana de Souza, é mestre em linguística pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e professora de Língua Portuguesa.


A história em O Leitor (2008) é ambientada no ano de 1995 e contada a partir da perspectiva do personagem Michael (Ralph Finnes), um homem bastante complexo que ao recordar fatos de sua juventude leva o espectador a 1958 para vislumbrar fatos que o moldaram na maturidade.

Aos quinze anos Michael teve um caso, que durou apenas um verão, com uma mulher mais velha, Hanna (Kate Winslet). Esse relacionamento foi composto por momentos de paixão mesclados à leitura, ou seja, além de amante, o rapaz se tornou, para Hanna, o leitor de muitas obras, sendo que, a moça sempre se mostrara emocionada diante das leituras. Até que um dia, Hanna parte sem se despedir, deixando-o devastado. Alguns anos se passam e Michael, cursando direito na faculdade, vai assistir ao julgamento de seis mulheres acusadas de serem responsáveis pela morte de um grupo de prisioneiras judias durante o nazismo. Entre as mulheres, o jovem reconhece Hanna, ex-guarda de campos de concentração.

As cenas decorrentes desse trecho enfatizam tanto a angústia e sofrimento do personagem diante da descoberta de que a moça por quem ele se apaixonou e a quem encantou com suas leituras ser responsável pela morte de seres humanos, quanto a revolta daqueles que assistiam ao julgamento. As acusadas respondiam pela morte de um grupo de mulheres, trancadas em uma igreja durante um bombardeio. A igreja foi incendiada e apenas duas pessoas sobreviveram, uma delas escreveu um livro contanto os horrores dos campos de concentração e relatando o episódio em questão. O julgamento ocorre a partir do testemunho descrito no livro.

Apesar de todas as acusadas representarem o nazismo, o discurso de Hanna é o que mais impressiona, por ser a única a confessar que trabalhou em campos de concentração e teve participação no acontecimento da igreja. É de modo bastante racional que a personagem relata esse episódio, e as razões que as levaram a trancar 300 mulheres em um lugar que se encontrava em chamas: as guardas eram responsáveis por manter a ordem o que significava não deixar prisioneiras escaparem. Hanna narra o episódio do ponto de vista da razão da época, era o certo considerando o sistema nazista e o trabalho que lhe fora designado. A perspectiva racional da personagem incomoda e revolta a todos no julgamento.

Essa revolta ocorre não só pelo que ela fez, pois as outras executaram as mesmas funções, mas por ela reconhecer e falar sobre o assunto, sem manifestar arrependimento, considerando a conjuntura em que ocorrera. É o dizer da personagem que faz com que ela incomode mais que as outras.

A partir dos dizeres da personagem podemos expandir nossas reflexões para considerarmos o funcionamento do discurso em uma sociedade, tal como proposto por Foucault em A Ordem do Discurso. Nessa obra, o filósofo francês aborda os mecanismos de controle do discurso, dentre os quais se destacam a interdição, segregação e vontade de verdade, sendo que, este último perpassa os dois primeiros. A vontade de verdade refere-se ao fato de não existir uma verdade, mas vontades de verdade que se configuram na história.

Podemos vislumbrar no filme dois momentos históricos que possuem diferentes vontades de verdade. Temos 6 acusadas respondendo pela morte de 300 mulheres. No entanto, houve milhares de pessoas que trabalharam em campos de concentração e quase 6 milhões de judeus mortos. A população alemã tinha conhecimento do que ocorria. Durante os anos que precederam o início da 2ª guerra e mesmo durante o período, Hitler difundiu idéias anti-semitas que agradaram o povo de modo geral, pois se referiam a superioridade ariana.

Nélson Jahr Garcia expõe que certa vez perguntou a um ex-capitão do exército nazista como o holocausto pôde ocorrer, e obteve a seguinte resposta: “Perdêramos a I Grande Guerra, engenheiros, médicos e tantos reviravam latas de lixo para encontrar comida, os judeus, comerciantes em sua maioria, expunham suas mercadorias sugerindo serem beneficiados pela situação, era solo fértil para as pregações anti-semitas”. O massacre de judeus foi uma prática considerada certa, verdadeira, durante o período em que o nazismo imperou em seu totalitarismo. Talvez aí se encontre a naturalidade de Hanna para abordar o assunto.

Em outras palavras, com Hitler os judeus foram interditados em seus discursos, proibidos de se expressarem e segregados, o resultado foi o extermínio de milhões em campos de concentração. A interdição e segregação desses povos foi possível por meio de discursos pseudo-científicos que veiculavam “uma verdade” a população Alemã. Essa verdade, que possibilitou a interdição e segregação, propagou a superioridade dos denominados arianos em relação os demais grupos compostos por judeus, negros, ciganos etc. Além de inferiores, os grupos foram ainda classificados como sendo uma ameaça a supremacia ariana. A campanha do ditador austríaco foi aceita como “uma verdade” que culminou no extermínio milhões de pessoas em campos de concentração, sendo que, grande parte do país compactuava, direta ou indiretamente, com seus horrores.
No entanto, com a derrota da Alemanha na II Guerra, a “verdade” foi alterada, transformada de acordo com outras contingências históricas. Falar sobre práticas nazistas de forma racional, como tendo sido necessárias para se manter a ordem na sociedade, naturalizá-las de acordo com o sistema da época ganhou significações negativas, o que levou esse tipo de discurso a ser interditado.

O discurso sobre o holocausto não pode mais ser dito de forma racional, pois não faz mais parte da ordem da sociedade, tornou-se proibido. A vontade de verdade no pós-guerra, e que se faz presente em nossa contemporaneidade, é pautada em questões estabelecidas pela ONU (Organização das Nações Unidas) criada em 1945, ao fim da II Guerra, sendo que, um dos pontos defendidos por essa organização consiste na proteção aos direitos humanos. Nesse sentido, qualquer discurso que aborde extermínio humano ao invés de proteção passa a ser interditado.

O discurso de Hanna durante o julgamento, tal como construído no filme, pode ser considerado um exemplo de interdição, ela não poderia mais proferi-lo daquela forma, pois a ordem histórica em si foi alterada. O resultado obtido por desrespeitar a ordem discursiva faz com que ela seja mais criticada que as outras cinco acusadas, que se calaram. A sociedade ali representada se estremece e revolta diante daquela que faz ressurgir o fantasma do holocausto.

Aos olhos de Michael, somos levados a refletir sobre a complexidade do ser humano, a complexidade das certezas que nos rodeiam e a complexidade de uma sociedade assombrada pelo passado.

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Terça-Feira, 18 de Agosto de 2009

Por Vera Lucia da Silva*

A prisão, segundo a Lei de Execuções Penais de 1984 (LEP), tem como objetivo ressocializar o preso e reintegrá-lo à sociedade. No entanto, os noticiários que se referem à temática prisão, sempre divulgam rebeliões, fugas espetaculares, greve de funcionários ou tortura de presos que possam interessar à mídia. Além disso, é constante atos de violência na sociedade comandados por presidiários, sob custódia do Estado que tem como dever – ao menos em nível legislativo – de fazer com que este volte a conviver em harmonia no meio social.

Notamos também noticiários divulgando a superlotação dos presídios e a urgência em aumentar o número de vagas, diante da demanda crescente da população carcerária. Isso significa que algo está errado, diante da situação degradante das prisões brasileiras e da ineficácia da privação de liberdade como forma de controle do crime, nesse círculo que se resume em prisão-liberdade-prisão.

Coloco então um pergunta para que seja refletida: vale a pena prender?

O cidadão comum – vítima em potencial dos efeitos da violência – que paga impostos e clama por mais segurança, que anda nas ruas temeroso em ter sua carteira furtada, seu carro roubado, sua casa invadida e sua integridade física atingida é o mais prejudicado. Em cada noticiário sobre o efeito devastador da violência e a prisão de possíveis causadores dessa violência, o sentimento que se tem é de alívio diante da possibilidade de ter menos agressores em liberdade.

Infelizmente, este sentimento é ilusório diante de um sistema que prima pelo lucro e a desigualdade social é o seu carro-chefe, pois não é nada surpreendente encontrar atrás das grades e diante dos tribunais pessoas que moram em favelas e subúrbios superpopularizados. Ou seja: a prisão é uma extensão visível de mais um aparato panóptico para agasalhar e controlar a pobreza.

Como conseqüência, a sociedade assiste, passivamente, a esse espetáculo de horror e paga caro pela falta de perspectiva no tema aqui abordado. Por isso, os especialistas da segurança pública poderiam utilizar a mídia para ampliar as discussões sobre a ineficácia do sistema prisional diante da abrangência da violência em nossa sociedade e debater com todos os segmentos sociais – escola, igreja, associação de bairros, conselho comunitário e de segurança, OAB e sistema judiciário de que é preciso pensar em outras alternativas de controle da criminalidade.

É preciso divulgar que a privação de liberdade deve ser reservada ao infrator violento e perigoso que se constitui em risco concreto ao convívio social. Manter na prisão infratores de pequenos delitos é desperdiçar recursos públicos e perseguir uma estratégia absolutamente equivocada de combate à criminalidade, ao mesmo tempo em que deixa de aplicar recursos em educação, saúde, saneamento, esporte, profissionalização e geração de emprego. Estes, sem dúvida, são requisitos indispensáveis para inibir o indivíduo dos caminhos do crime.

Prender não é um bom negócio, pois somente alguns segmentos da sociedade ganha com este ato: o sistema judiciário e, principalmente, seus juízes, advogados e os agentes prisionais, os responsáveis pela gestão do dinheiro público destinado à construção, reforma, reparo e manutenção dos presídios, os responsáveis pela vigilância e captura da população prisional, o circuito do tóxico, do jogo, da prostituição, dentro e fora dos muros carcerários e, ganham principalmente as classes poderosas que têm seus crimes, contra a propriedade pública, atenuados.

Se a pena de prisão é aplicada para punir os delitos das classes mais pobres, não vale a pena prender, pois a prisão é uma fábrica cara demais e responsável em fazer com que as pessoas se tornem piores. O paradigma de prisão, no contexto vigente, se constitui em um duplo erro: custo altíssimo e manutenção da violência por não ter condições de reprimi-la.
 

Vera Lúcia da Silva é mestre em linguística pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e
doutoranda em Linguística pela Unicamp.
Contato: vluzsilva@ig.com.br
 

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, 16 de Agosto de 2009

Por Renata Adriana de Souza*

Nossa proposta para este espaço é bater papo relacionando mídia e cultura. Para abrir a questão, falaremos um pouco sobre filmes. Filmes de todos os gêneros. Alias, o gênero da produção não será relevado. Nosso objetivo aqui não é fazer definições e dividir filmes em categorias. Até porque diferentes gêneros têm dialogado constantemente no interior de diversas produções, dentre as quais podemos citar o filme Ilha das Flores.

Ilha das Flores é um curta-metragem de 13 minutos do diretor Jorge Furtado que foi lançado no ano de 1989. A produção é considerada por muitos um documentário, devido ao fato de ela abordar uma problemática social bastante séria referente ao fato de muitos seres humanos, nesse lugar chamado Ilha das Flores, consumirem lixo dispensado da alimentação de porcos. Mais especificamente, é mostrado que em Ilha das Flores há um terreno onde o lixo é selecionado para servir de comida aos porcos, aquilo que é considerado impróprio aos porcos, o dono do terreno fornece às pessoas. Apesar de ser considerado documentário, a estratégia argumentativa utilizada pelo autor possui muitas interseções com ficção.

Sua construção é feita no cruzamento entre o discurso das ciências biológicas e o discurso social. O discurso das ciências biológicas ganha corpo em diversas definições, estas últimas encontram um contraponto em imagens que enfatizam a perspectiva social. O eixo articulador consiste em um discurso que define os seres humanos do ponto de vista científico: “Os seres humanos são animais mamíferos, que se distinguem dos outros mamíferos, principalmente, por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor”. Esse enunciado aparece com regularidade em todo o curta-metragem enfatizando que os seres humanos, do ponto de vista biológico, são iguais. No entanto, as imagens que o acompanham enfatizam que, do ponto de vista social, os seres humanos possuem diferenças abismais.

A partir do contraponto entre essas duas perspectivas, a crítica social produz um efeito de ironia que se materializa no momento em que a imagem é exposta. A ironia, no curta-metragem, consiste em uma forma argumentativa que estabelece a crítica social, referente à problemática mostrada, como denúncia.

Ao considerarmos o modo como Ilha das Flores é construído torna-se difícil estabelecer limites entre a ficção e o documentário. Ao ser questionado sobre essa produção, Jorge Furtado declarou que, quando a filmou, tinha um texto escrito e saiu para ilustrá-lo, “inclusive com pessoas”. Assim, o interesse desse cineasta pelo Outro era mínimo, tendo em vista que seu propósito consistia em colocar pessoas fazendo determinados gestos. Ele pediu que esses gestos fossem feitos, e as pessoas os fizeram.

Ao filmar a cena em que o dono do terreno permite a entrada de pessoas para pegarem restos de lixo dispensados da alimentação de porcos, os moradores “beneficiados” da região disseram ao diretor que aquele proprietário era uma pessoa bacana por deixá-los entrar para pegar “comida”. Os outros donos de terreno não faziam isso. Esses últimos apenas alimentavam os porcos. Diante das questões que foram surgindo, embora o dono dos porcos tivesse concordado em aparecer, Furtado optou por colocar outra pessoa para fazer o papel.

Escolhas desse tipo são feitas a todo o momento, em qualquer tipo de produção seja ela ficção ou documentário. Mesmo em filmes apenas ficcionais, os gêneros têm se misturado, tanto que, nos próprios encartes há um apagamento da categoria. Nas locadoras, é comum encontrá-los em classificações denominadas de “interesses especiais”. O que seria um filme de “interesse especial”? Não cabe a nós responder. Nosso interesse aqui é discutir, conversar, bater papo sobre algum filme que nos chamou atenção, expondo as razões pelas quais ele nos despertou interesse.

Em Ilha das Flores, o interesse despertado ocorreu devido ao trabalho realizado com a linguagem verbal em contraponto a imagética para construir, a partir desse processo, o efeito de ironia. Esse é um trabalho extremamente complicado. São poucos os autores e diretores que conseguem usar a ironia, enquanto recurso de linguagem. Menos ainda, são aqueles que a utilizam para produzir alguma forma de crítica social. Todos esses aspectos fazem do filme, mesmo após 20 anos, único e, certamente, vale a pena assisti-lo mais de uma vez. Aos interessados, basta acessar o site: www.portacurtas.com.br.
 

* Renata Adriana de Souza, é mestre em linguistica pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e professora de Língua Portuguesa.  

 

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Sexta-Feira, 14 de Agosto de 2009

Este é o texto inaugural do blog Letras Abertas, que inicia hoje suas postagens no informativo Guia Global.

Antes de tudo, antes de apresentar o tema, apresentar os autores, apresentar o blog, gostaria de responder a questão: precisamos de mais conteúdo na internet? Precisamos de mais artigos sobre mídia, cultura, política e sociedade?

Nicholas D. Kristof em 24/3/2009, em seu artigo intitulado “O leitor editor de si mesmo”, nos apresentou o que Nicholas Negroponte chama de “O Eu diário”. Nome dado pelo autor para definir um “produto noticioso emergente” que seria, basicamente, a possibilidade, que surge com a internet, de os indivíduos produzirem o seu próprio diário, ou seja, selecionar suas próprias notícias, seus textos preferidos, tudo de acordo com seu bel prazer, ou seu único prazer.

Resumindo, o artigo e as idéias propostas pelos dois Nicholas indicam que, sendo o leitor o editor de seu próprio conteúdo a tendência (boa ou má?) é que todos só vejam e leiam aquilo que desejam, aquilo que os agrada ou que confirme suas convicções e pré-conceitos, instaurando o perigoso provável destino de estarmos condenados a nunca mais ler ou escutar idéias e opiniões divergentes.

A questão colocada por Kristof é: cessa-se, assim, a possibilidade de nos depararmos, de encontrarmos, em um espaço tão segmentado como a internet, um lugar com múltiplos olhares sobre uma mesma temática? Se assim é. É necessário subverter esta ordem organizacional e dificultar os modos de um leitor encontrar ambientes reduzidos em agregações, tribos, comunidades (o que é, evidentemente, uma forte tendência da internet).

Torna-se imperioso, neste contexto, a necessidade de que haja um “esforço diário” que na opinião de outro autor, o Luiz Weis, poderia ser “servir de instrumento de promoção do debate público sobre as questões trazidas no próprio noticiário, abrindo espaço ao contraditório, como se fala hoje em dia. O periódico ideal, desse ângulo, é aquele com o qual nenhum leitor possa se identificar plenamente e no qual todos possam encontrar algumas de suas convicções.”

Curiosamente estes três textos surgiram em minha tela quando eu, buscava “solipsistamente” idéias e convicções que justificassem o meu ideal, e de outras colegas, do momento: criar um espaço capaz de agregar “múltiplos olhares sobre mídia e sociedade”.

É assim que, no melhor estilo de “eu diário” queremos concordar com os argumentos destes autores, e achamos muito sensato, a necessidade de que se multipliquem os espaços cujos debates não se fixem em um único ponto de vista sobre aquilo que a mídia diária tem produzido nos mais diferentes campos da sociedade: na cultura, na política, no espaço urbano, na educação.

Voilá! Parimos o site/espaço Letras Abertas - Múltiplos olhares sobre mídia e sociedade. Quem sabe para cumprir com nosso “esforço [necessário] diário” para impedir, para possibilitar alternativas em direção da não concretização das coisas em “pretos e brancos”, mas da multiplicação dos “cinzentos em que o mundo se desenrola” como sugere muito bem Luis Weis.

Bem vindo, leitor-editor, nosso novo espaço que visa desfilar na passarela social, um novo papo: são pesquisas, debates, seminários, congressos, eventos, colóquios...

E o por quê de tanta reflexão?

Mídia pra cá e pra lá... educação, comunidade, particularidade de cada lar

Cenário mundial, internacional, interplanetário no contemporâneo universo atual

Contemporaneidade

Aliás, palavra-caos

tradução de uma moda, um tempo, da nossa civilização

Que espaço é este?

Sintomática, a cultura da tecnologia abre-se aos humanos a mais fantástica possibilidade de comunicação... no ar, no céu, nas ruas,
postes, outdoors, nos equipamentos eletrônicos: o papo não cala, abre-se!

E o que dizer da não menos famosa Era da Informática?

Arte, cultura, política, fama e capital...na mídia, o as “letras” são descontínuas, formatadas numa galeria pluriforme, de significados diversos, astutos e conflitantes

Encantado (a) com nossas Letras Abertas?

Pois bem: temos instrumentos que fomentam temáticas nos minutos/segundos/instantes contemporâneos... embora não faltem também reivindicações para a falta de diálogo na família, na escola, no ciclo social...

Não!

Agora o universo abre a rede e as letras para uma nova configuração... um planeta-fala em que o tempo não é superior ao anseio de gritar pensamentos, inquietações, cultura – fala sério?

Abra-se, assuma seu lugar no Letras Abertas, no território onde a mídia reside, foge, é construída, reformulada, questionada, assumida pelas linhas papométricas, de um papo-cabeça... Não quer abrir-se? Então mergulhe nas infinitas reflexões de outras Letras que se abrem num papear-intelecto-liberal.

Letras Abertas? Sim, senhores, senhoras, vocês, pessoas

Aqui, as palavras, as letras se abrem: você fala, publica, opina, ouve, lê, e, fundamentalmente, não fica sem abrir-se para os múltiplos olhares (e letras) sobre a mídia e a sociedade.

Inovações?
Nenhuma, talvez!
Satisfeito(a)?
Não?
Então entre, envie suas letras e abra um novo "papo", um novo lugar no cotidiano do universo temido, vivido, chamado: contemporaneidade.

 

 


 

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